
Carlos A. S. Aguiar
O autor nasceu num sábado 27 de Junho de 1942… Cada vez lhe falta mais imaginação, e a que ainda conseguiu engendrar todas estas histórias, está mesmo a acabar-se! A não ser, que haja algum leitor que goste, compre este livro, eu saiba que se vendeu… E isso sirva para a reacender!
Sus libros

O homem que queria escrever um livro
Um homem que raramente pensava, porque dava muito trabalho, mas que quando se punha a pensar nunca mais conseguia parar, certa vez, em que os pensamentos se sucediam vertiginosamente, um deles, persistente, impeliu-o a escrever um livro, sugerindo que “Se outros conseguem...! Mas, ele mal sabia ler, quanto mais escrever um livro! Para parar de pensar, comprou um montão de livros, de vários temas, foi para casa ler e... ficou com vontade de também escrever um. Inspirando-se no que lera, escrevendo, desistindo, e de novo tentando, neste livro tratam-se as formas peculiares, como os vários temas, canhestramente, lhe saíram da pena.

O suicida e a caneta de tinta permanente
Segundo Miguel Torga “Alguém tem que segurar a pena, até que a possa passar a um génio”. Por analogia, quando se torna premente a necessidade de se tirar a água do porão de um navio, que mete água, antes que ele se afunde, não havendo bombas para a aspirar, começa-se a baldeação, enchendo-se baldes que se passam de mão-em-mão, até que a água seja devolvida ao mar. Todos os baldeantes são necessários. Basta que um deixe de passar o balde ao seguinte, o barco pode afundar-se. Eu faço parte dos baldeantes. Sou o que a tira do porão, mas tenho o balde pouco cheio, porque sou fracote. Embora a água seja pouca, passo-a ao seguinte. Se a cadeia não for interrompida, o barco talvez se salve... Os contos que aqui apresento, são como a pouca água que o meu balde conseguiu ir tirando... Mas o barco não se afundou! Logo que apareça um génio... passo-lhe o Balde.

A mensagem na garrafa
Se um dia destes estiver a passear á beira-mar e encontrar uma garrafa de vidro a flutuar, translúcida ou mesmo escura, se lhe parecer que ela tem algo parecido com um papel no seu interior, apanhe-a, mesmo molhando os sapatos, as meias, os pés, e a parte inferior das calças. Leve-a para casa e, tal como aconteceu ao António Lopes, delicie-se a decifrar o que lá vinha escrito. Pode até apaixonar-se, e ser correspondido, por uma linda senhora escocesa. Boa sorte!

Adrenalina e digitalina
Um rapaz, de 20 anos tinha acabado de ser integrado no exército, para cumprir o serviço militar obrigatório. A interrupção da sua vida civil, pela obrigatoriedade de prestar o serviço militar, não tinha sido mal recebida pelo jovem, até lhe agradava a possibilidade de ir conhecer mais outros locais e outras pessoas. No dia aprazado, que lhe tinha sido comunicado, quando da inspecção, embarcou num comboio na Estação mais próxima da sua terreola, depois de caminhar cerca de três quilómetros, porque não havia transportes colectivos; porque o automóvel da família por ser pouco utilizado, não arrancava nem empurrando; porque o macho que poderia puxar uma carroça que o levaria à estação, estava a ferrar, por lhe ter caído uma das ferraduras e o ferrador estava ocupado noutras tarefas... Começava muito bem, como se vê, o tal dia aprazado. Eram assim as facilidades de transporte no nosso país naqueles locais e naquele tempo...

A cenoura e a ratazana morta
O céu muito escuro, coberto por nuvens de trovoada a ameaçarem chuva forte – que se concretizou dali a pouco – e um vento rijo soprando do mar para terra, não eram condições convidativas para que pessoas com algum juízo, e sem chapéu-de-chuva ou capa impermeável, fossem passear à beira-mar. Foi num dia destes que, indo ao longo de uma praia, aqui perto de onde moro, sem chapéu-de-chuva nem capa impermeável, o mais próximo que pude da arrebentação, tentando, pelo menos, não molhar os sapatos, fui observar as altas ondas, muito frequentes e ruidosas que ao arrebentarem, formavam lindos bordados de bilros com a sua espuma sobre a areia.,. Fui vendo o que a maré revolta de Outono trazia no seu seio e despejava na praia. Continuei assim, fugindo sempre que as ondas se chegavam mais acima, e fui saltitando, aproximando-me ou afastando-me. Ao fim de algum tempo, algo me chamou a atenção. Era uma forma pequena, tubular, afunilando para uma das pontas, de cor alaranjada, que ora se aproximava da areia, ora logo voltava para o mar. Era uma cenoura. Um pouco mais adiante vi uma ratazana morta...

O Argumento Para a Curta Metragem
“José Rodrigues tinha acabado de ver um belo filme de cowboys e índios. Lá dentro do cinema estava menos frio. E, nesse filme, os cenários onde se passava a acção, por representarem locais áridos, quentes e grandiosos, ajudavam a temperatura a ficar ainda mais confortável. Além disso, os tiros, as cavalgadas, a muita poeira, a gritaria de índios, o toque de clarim da cavalaria, e todo o frenesim da acção aqueciam ainda mais os espectadores... De vez em quando, uma seta acertava num dos da cavalaria, que caía em grande plano, junto com o cavalo; outras vezes eram índios... Acabado o tiroteio, a cavalaria ganhava. Os poucos índios sobreviventes iam embora; o herói, o actor principal – que era denominado naquele tempo o rapaz – que comandava a cavalaria, dirigia-se a uma das carroças das caravanas que formavam em círculo e tinham sido atacadas pelos índios, onde o esperava a rapariga que era a actriz principal, cingia-a pela cintura abraçando-a fortemente, e dobrando-a para trás, pespegava-lhe um beijo, que em grande plano parecia que nunca mais acabava, e partia para o horizonte, junto com os militares que comandava, enquanto a menina lhe ia acenando num enorme adeus....

A Abelha Abelhuda e outros contos não infantis
Inácio Freitas, é meu amigo de longa data. É uma pessoa inteligente e diligente, simpática e agradável no convívio com os amigos, e com todas a pessoas com quem se relaciona ocasionalmente. Moramos no mesmo prédio mas, por condicionalismos profissionais, por vezes estamos vários dias sem nos vermos. Encontrámo-nos um dia destes, e achei-o estranho. Quando lhe fiz sentir isso, ele retorquiu que estava a ficar aparvalhado com uma coisa que lhe estava a acontecer ultimamente. E contou-me, assim por alto, o que era que o estava a deixar aparvalhado. E, realmente, o que lhe estava a acontecer ultimamente era algo que poderia aparvalhar quaisquer outras pessoas… Até eu também fiquei de boca aberta e aparvalhado...

A Borboleta que poisou no dedo do Marechal Saldanha
Frederico Neves, sou eu. Revelo logo o meu nome pois sempre tive horror a escritos anónimos, especialmente daquelas cartas que dizem que a mulher de fulano lhe anda a pôr os palitos com sicrano. Deu-me na pinha escrever uma coisa que me aconteceu. E ainda bem que tive esse impulso!

C.C.B. ou C.C.B. e Outros Contos
Hoje tive um sonho, ou um horrível pesadelo! Sei agora, que já acordei, que era um pesadelo! Nele, eu tinha uma imperiosa necessidade de tomar um duche. E estava num local que me parecia ser o que precisava para tomar o tal duche, pois havia muita gente, homens e mulheres, a passear, nus da cintura para cima, com um bocado de sabão na mão, e uma toalha a tapar a parte inferior do corpo, até meio das pernas...
Naquele ambiente, apesar de ser quase óbvio, perguntei a um deles se se podia ali tomar duche. Respondeu-me que sim, bastava procurar um chuveiro sem ninguém...
