
Diogo Aloendro
Diogo Aloendro, pseudónimo de António Henriques de Matos, é natural da aldeia de Alcofra, situada na encosta da serra do Caramulo. Fica órfão de pai aos oito anos de idade. Começa a trabalhar aos onze anos, acabados de fazer, já com a instrução primária concluída. Trabalhou durante dois anos, até aos treze, nos mais diversos trabalhos ligados à agricultura. Nos seguintes dois anos, exerceu na vila de Vouzela, sede de concelho da sua aldeia, a atividade comercial. Aos quinze anos de idade emigrou para Lisboa onde continuou semelhante atividade comercial, até ser incorporado na vida militar. Entretanto, e em simultâneo, em regime nocturno, concluiu o curso liceal e depois, da vinda da Guiné, o grau de Economista, cuja profissão ainda exerce. Ingressou no início do ano de 1972, num dos maiores e mais prestigiados Bancos Portugueses, onde trabalhou 42 anos. Aqui exerceu, em diversos níveis, as mais qualificadas funções. Ao longo da sua vida profissional foi encontrando motivação, espaço e inspiração para se desenvolver intelectualmente, bem como se realizar pessoalmente, fazendo incursões no domínio da escrita. Surgiu, assim, numa altura já entrada da vida, um primeiro livro de poesia, sob o nome de “No Horizonte da Vida” publicado em 2018, um segundo livro sob o título “Memórias de Um Combatente na Guiné de 69/71” publicado em fevereiro de 2021, um terceiro livro sob o título “Sonhos de uma Criança que não o pôde Ser” publicado em dezembro de 2021, surgindo agora este novo livro que reúne um conjunto de “Histórias de Natal e Outros Contos”, que relatam, na sua essência, os viveres e as crenças das gentes beirãs, na sua relação com a religião cristã, enfatizando as difíceis vidas que couberam àquelas gentes temente a Deus.
Sus libros

Memórias de um combatente
O Cais da Rocha em Alcântara, parecia um cais diferente daquele que deixámos, dois anos antes. Muito mais alegre, com uma mole humana de braços no ar, acenando sem parar, à medida que o Barco se aproximava. Não voltaram ao cais, os familiares dos camaradas que lá perderam a vida, e também os familiares dos feridos evacuados para a Metrópole. E, isso, tornava, muito mais triste, a nossa chegada. O desespero, os gritos e o desânimo, de quantos há dois anos, se vieram despedir, contrastava agora com a alegria incontida, em cada abraço que se multiplicava, no cais da nossa saudade.

Sonhos de uma Criança que não o pôde ser
Sempre entendi que devemos julgar os nossos méritos, não pelas nossas qualidades, mas pelo uso que delas fazemos. Neste desiderato, sinto-me realizado, pois, sempre procurei actuar com a mais ampla honestidade para com todos aqueles que me rodearam, desejando a cada um, aquilo que desejei para mim. Sinto-me realizado, igualmente, por ter conseguido transformar em objectivos, os sonhos que me deram sentido à vida; sempre consciente de que quando não podemos ter o que queremos, devemos aceitar o que podemos ter. Sabendo que a felicidade mora em reconhecermos estes dois conceitos, o poder e o ter, posso garantir-me que sempre fui feliz. Sem cuidar de qualquer reconhecimento, sentia-me como que subindo uma montanha, não para ser admirado quando ao topo chegasse, mas tão só para observar o imenso horizonte que é o mundo.

Histórias de Natal
Prestando a máxima atenção ao que o orador transmitia, sentia-se incapaz de recuperar o “fio à meada”, pois não discorria qual fosse o tema, e as frases que o orador enviava para a assistência que o escutava com a maior solenidade, que só aos anjos se concedia, podiam adaptar-se a qualquer discurso, quer fosse político, religioso, ou mesmo social, e neste social, cabe tudo o que se possa entender. Por isso decidiu-se, então, instar um dos homens que, a seu lado, se mantinha mais atento, e perguntou: – Meu caro senhor, que tem estado a dizer este orador? – Ao que este, respondeu: meu caro, por enquanto não disse nada, tem estado só a falar… Então, este recém-chegado, retomou o seu caminho e abalou, num abalar rápido, como que querendo recuperar o tempo que ali consumiu, ao procurar integrar-se de algo de importante que ali se estivesse a passar.

Para lá do horizonte
“Triste sorte é ser velho nesta cidade Onde já não mora a solidariedade No seu corpo, dobrado, vai andando Pela avenida, como que em penitência, Estende a mão a quem vai passando Mas, apenas ouve: tenha paciência… No interior de tão amarga solidão Vai empurrando o futuro com a mão.” (excerto in poema “Um pedinte na cidade”)

Do Lado de Dentro da Saudade
Entre memórias, gestos e silêncios partilhados, as palavras tentam alcançar o que a gratidão nem sempre consegue dizer em voz audível. São sentimentos de ternura, envoltos na certeza de que alguns laços, mesmo que interrompidos pela ausência, continuam a iluminar o caminho de quem fica.
