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José Luís Ferreira

José Luís Ferreira

José Luís Ferreira natural de Lisboa, reúne obra dispersa por diversos Suplementos Culturais. O seu percurso literário baseia-se nas pessoas, em cada uma das suas pétalas, em cada uma das suas rugas. Pela liberdade das palavras e dos sentires, desalinhado de costumes e crenças, de vénias e aplausos. Obras de José Luís Ferreira – Toma, 1982 – Bairro de Lata, 1984 – Elena, 2021 – Inacabado, 2021 – De repente a cidade, 2022 – Tenho gritos por dentro de mim, 5 Livros, 2022 – Ele ainda não sabe que morreu, 5 Livros, 2022 – Não sei que horas são esta noite, 5 Livros, 2023 – E é tremendo o desejo de mar e de tempestade, 5 Livros, 2024 – Diversas antologias em Portugal e no Brasil

Sus libros

Tenho gritos por dentro de mim

Tenho gritos por dentro de mim

POESÍA80 pág.ISBN 9789897825415

Assustem-se. Serão assim as vossas manhãs. Saberão do escuro e do interior das nuvens. Saberão da origem do crime e dos beijos frios que nunca conseguirão beijar. Saberão do medo e do vazio do medo. Assustem-se, haverá horror e loucura neste livro. Ou a terrível verdade. Um pouco de verdade e será memória, um lado que se desconhece e nunca será penumbra, a mulher nua, a sua boca de ausência e será corpo e arrependimento. Devagar, num sorriso terrível. E serei detestável. As coisas não serão más nem céu nem colisão na sua vocação eterna. Nem vidro magnífico. O que ninguém sabe. A cama, como se houvessem maçãs de ameaça e sinos de larvas putrefactas. Ou confia na obra e nos olhos que sorriem. Saberás da vagem e dos lábios amantes, das mãos que se agarram e prosseguem. Sim, a mulher nua e um vidro magnífico. O que ninguém sabe da esperança. A carne límpida e a tua voz ao fundo.

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Ele Ainda Não Sabe Que Morreu

Ele Ainda Não Sabe Que Morreu

88 pág.ISBN 9789897826078

Não sei porque escrevo, na verdade são as palavras que se acotovelam enquanto eu apenas assisto ao que elas escrevem por dentro de mim. Acabo por ser um parapeito entre o ali e o aqui, um passaporte para todas as ruas. Entendo-as como a casa, a minha casa branca e negra, de todas as cores, todos os dias. As casas e as ruas opõem-se. As palavras abraçam e arranham enquanto as ruas parecem cemitérios onde os mortos passeiam, ausentes de si e alheios às palavras. As palavras emudecem nas ruas. Ele ainda não sabe que está morto, não consegue perceber que todos já morreram e, no entanto, raramente sorri enquanto cruza as pernas, sentado na cadeira da cozinha. Julga-se o auge do frio, a voz assombrada. Quando lhe perguntei porque recusava a alegria, ele sorriu carregado de loucura e discursou por detrás dos caminhos que nunca percorreu, a utopia e o abraço.

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E é tremendo o desejo de mar e de tempestade

E é tremendo o desejo de mar e de tempestade

POESÍA134 pág.ISBN 9789897829383

[…] Tudo em mim é mar e é tempestade e caminho pantanoso. Esta é a minha resignação até que os dias se esvaziem da sua memória e tu segues-me sem que o saibas, sem que o compreendas ainda. O que significa a razão das causas e qual o seu hálito se sangue ou de lágrimas. Pergunto se é esta a sua razão, sim sim, não não. Pergunto-me de novo. Andarás nu e sentirás vergonha como se o corpo fosse uma enorme voragem. Um dia falei-te da fome e o teu encolher de ombros desvairou de insolência como se o terror fossem os teus dias antigos e novos. É costume falar-te da terra e das trevas e sentes arrepios e temes o sono dos fantasmas inventados. Dizes, sim sim, não não. E a tua voz em sobressaltos de emoção parece alheia como se fugisses de todas as culpas. Sim sim, não não. E por dentro de ti apenas ausência e um sabor amargo a solidão e degraus muito brandos. […]

Por dentro de ti todas as palavras

Por dentro de ti todas as palavras

POESÍA86 pág.ISBN 9789895863822

Raízes dançam

o sol beija o corpo nu.

Gritos de vento.

Coroa de espinhos

o poder pesa no céu.

Gritos sob a terra.

Silêncio morto

a sombra persiste.

Raízes gritam no chão.

E que gritos serão estes

e tu e eu.