
José Luís Ferreira
José Luís Ferreira natural de Lisboa, reúne obra dispersa por diversos Suplementos Culturais. O seu percurso literário baseia-se nas pessoas, em cada uma das suas pétalas, em cada uma das suas rugas. Pela liberdade das palavras e dos sentires, desalinhado de costumes e crenças, de vénias e aplausos. Livros: – Toma – Bairro de Lata – Helena – Inacabado – De repente a cidade – Tenho gritos por dentro de mim – Ele ainda não sabe que morreu – Não sei que horas são esta noite – Editado em diversas Antologias em Portugal e no Brasil
Sus libros

Não sei que horas são esta noite
Sempre os mesmos rostos nas mesmas mesas, ligeiros golpes de atenção talvez a descobrir pedaços de gelo. Não há respostas, as palavras resistem, já o disse, os mesmos destroços nas outras mesas que pouco falam, os olhos cavados parecem terra, eles sabem-no e apenas esperam, quase invisíveis, distantes, os seus olhos ainda procuram o fogo dos evangelhos, outras vezes apenas vegetam e é esse o seu prodígio, já sem aquele jeito militar de bater com os tacões um no outro para aquecer o turno, também aí o frio e a espera, de facto que puta de vida que nos ultrapassa, isto de ser jovem é uma grande pressa, e os evangelhos carcomidos, desbotados de ardor, acreditar em quê se nem o vinho se arrepende, o pão e o vinho e um qualquer milagre.

A noite respira-me por dentro
são loucas as bocas que gritam
e avançam
como secas são as folhas
das ideias de outono
não sei
porque te libertas da minha sombra
nenhuma das noites
nem as mais lentas promessas
apenas por serem o êxtase
das bocas ainda jovens
de facto elas são o ar e o lago
onde se esquecem a morte
e a criança
enquanto te libertas da minha sombra
