Liberto Cruz
Liberto Cruz nasceu em Sintra em 1935. Poeta, crítico, ensaísta, biógrafo, tradutor e conferencista é licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa (1959). Foi professor do ensino secundário (Castelo Branco e Lisboa) e Assistant Associé das Universidades de Rennes, Nantes e Vincennes (França), onde leccionou literatura portuguesa. Fundou em 1961 a revista Sibila e dirigiu de 1964 a 1966 a colecção Poesia e Ensaio da Ulisseia. Crítico literário do Jornal de Letras e Artes de 1965 a 1966. Colaborador da Colóquio Letras desde 1971. Introdutor em França (1969) da cadeira de estudos de literatura africana de expressão oficial portuguesa. (Secção de Português da Université de Haute Bretagne – Rennes). Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Paris de 1975 a 1988. De 1988 a 2000 foi Director da Fundação Oriente em Lisboa. Além da obra poética tem-se interessado por vários autores portugueses e estrangeiros, sendo dignas de especial atenção as obras dedicadas a José Cardoso Pires, Ruben A., António José da Silva, Júlio Dinis, Marquês de Sade e Blaise Cendrars. Viveu em França de 1967 a 1988. Foi Presidente da Associação Portuguesa dos Críticos Literários de 2000 a 2017.
Sus libros

Poesia Reunida (1956-2011)
Esta abrangente colectânea que agora se publica, obra de uma vida, inclui, no fim, um livro inédito, dividido em três partes; uma “arte poética” (ou, antes, e de modo mais englobante, um “manual de construção”), intitulado, precisamente, “Construir”; uma “Evocação”, onde perpassam elegíacos fantasmas da infância, do amor, da guerra (sempre, e com que força!) e, por fim, uma terceira parte – “A Pedra e o Corpo” – convocadora desencantada de “uma pedra / Agora fria / De um corpo / Adiado já.” Os poemas, mais ou menos longos; os versos, breves ou brevíssimos. O máximo efeito, com o mínimo de recursos. Sempre. Como se recomenda no Eclesiástico (32.8): “Sê conciso no teu discurso: muitas coisas em poucas palavras; sê como quem sabe, mas se cala a tempo.” Assim faz o poeta, quando diz, dando voz à pena que faz a guerra: Em quatorze versos num soneto fugido à guerra lembro agora um a um os que deitados na terra angolana lá ficaram heróis ou parvos ou santos. No primeiro dos três poemas do livro inédito – “Construir” – podemos ler: “A palavra cumpriu.” Também o poeta – com as palavras – a palavra cumpriu, executando, com empenho, com perícia, o exigente “caderno de encargos” que a si próprio impôs. Eugénio Lisboa (do prefácio)

Les Mains Sur la Tête
Se qualquer mão ou qualquer cabeça pode sempre esconder uma outra, de igual modo, e atendendo à inexorável lei das compensações, também qualquer fala poderá sempre ocultar uma outra, ainda que, deliberadamente, o faça despontar em diversa língua. Assim o entendeu e sustenta, ora de uma forma irónica e desabusada, ora de uma forma contundente e reflectida, o autor de esta desalinhada, salutar e implicativa dor, oriunda de uma acolhedora terra alheia, em que as mãos e a cabeça tanto se protegem e reclamam, como aliviam e pretendem saudar, em jeito de lembrança, uma saudosa vivência.
