
Maria Jawaa
Sus libros

Saga de Um Mundo Perdido
Esta é uma história real. A intenção é recordar a vida de meu Pai, um homem muito estimado por todos na terra em que nasci, pela sua hombridade, seu carácter franco e generosidade, pela sua alegria. A instância dos familiares mais novos que com ele contactaram, e porque eu possuía algumas notas grafadas por seu punho, decidi escrever o que pretendo ser uma história de vida, retirando o facto da subjectividade de quem escreve, retirando a distância de décadas largas que me fazem olhar o passado com olhos saudosos, esquecidos de preferência de todas as vicissitudes que se seguiram a uma morte súbita e prematura, no regresso a casa depois de ter deixado a sua filha estremecida em terras da Metrópole, que visitou pela primeira vez em mais de quarenta anos. Nessa última viagem de regresso a Angola, a bordo do Infante D. Henrique, o navio que fazia a ligação entre Portugal e as províncias ultramarinas na época, escreveu uma carta de quase premonição a sua filha e genro. (…)

Tapeçaria
[…]
Os anos volvidos não foram suficientes para construir as defesas necessárias, não foi suficiente a blindagem dos sentidos fortalecida pela ausência de décadas. As sucessivas imagens recebidas através de emails, novas imagens, imagens de uma nova Angola, não mudaram afinal a sua Luanda, a que guardou bem dentro, a terra de calor, a terra de sonho e beleza que persistiu no fundo de si. Por isso o choque foi brutal, ainda que consciente dele antes da partida de Lisboa. Porém uma coisa é ver imagens, outra coisa é palmilhar as vielas, aspirar ouvir sentir a humidade, o suor, os olhos escorrendo pelos corpos nus, pelas fezes vertidas por entre os despojos das ruas, os meninos negros ainda de olhos e barriga grande, o lixo descendo pelos musseques que sobem pela terra vermelha das barrocas.
[…]
