
Paulo Ferreira
Paulo Ferreira nasceu em Lisboa, em 1949. Embora licenciado em Arquitetura, nunca exerceu a profissão de arquiteto. Por necessitar de algum tempo livre que lhe permitisse dedicar-se à concretização de outras atividades para si indispensáveis (principalmente a prática da escrita, da leitura, da música e das caminhadas urbanas ou na natureza) optou por uma carreira no ensino, tendo sido professor de Geometria Descrita e de Artes Visuais, no ensino Secundário. No que respeita à prática da escrita, considera que tudo o que até hoje escreveu, sejam os seus Diários, sejam os seus Registos de pesquisa, seja a sua "Obra" poética propriamente dita, são meras ficções, nas quais não se explicita qualquer retrato mais ou menos desfocado de quem o indivíduo Paulo M. C. Ferreira na verdade é. Em ralação à sua "Obra" poética, e assumindo as suas contradições pessoais, o autor (ele próprio uma figura ficcionada) decidiu distribuir os livros que a constituem em dois grupos, antagónicos quanto aos seus temas e conteúdos: "A parte do lado da vida, em vida" e "A parte do lado da morte, em vida". No primeiro grupo é evidenciada uma enorme vontade de viver diferentemente, enquanto que no segundo grupo se revela a constatação da impossibilidade de realização dessa aspiração. Paulo M. C. Ferreira tem vários livros publicados em edição de autor: O salto em frente (2019), Incontornável (2019), O rumo escolhido (2019), Captura falhada seguido de A verdade oposta (2020), Casa com terraço (2020), Plano de desvanecimento (2021), Claridade a descoberto (2021), Pequenos remoinhos de lucidez (2021) e Dinâmicas de alteridade (2022).
Sus libros

OPUS OPα
Esta casa, se possuidora de um terraço,
é porque a planeámos dilatável, veículo célere
da fluência que nela o silêncio de si irradia.
Um terraço servindo de cais para a claridade aí acostar,
e donde se avistam os bosques de índole elevatória
e os bandos de aves que os ocupam.
Casa com terraço, para que eu possa tornar-me,
durante os sucessivos gestos de estremecimento muscular,
num dos que se recostam numa cadeira de baloiço
virada para a laguna pneumática do dia.
Diante de mim, a sua extensão lava-me fundo o olhar
com a mão rotativa do ar vindo do horizonte.
Aflorado, o caudal agitante do verão
aquece-se numa força de atracção prestes a inserir-me
no aglomerado de folhagem que dele não se separa.
Ligado à contínua brevidade do que passa
pelo olhar com que o calibro e o faço centrífugo,
vou cumprir-me até ter uma foz.
Foz de céu em riste, leve como um outeiro de gaze,
desde que o trajecto do olhar a alcance
onde eu me complete segmento complementar
da linha de um horizonte cujo prolongamento me deseja,
flutuante e flexível, ao sabor da minha única vida.
Oscilo tanto eu como o ar que me inunda.
Que fácil, sangrar sentado sobre o gatilho do dia.
E o facto de o premir, mantendo sonante o movimento
de me deixar sulcar pelos seus gumes rasantes,
preenche-me o olhar com uma tuba de filtragem do chão
em que a própria cadeira de baloiço é um cais
para a descarga da face da claridade.
As aves voam por entre nós, ao longe renovam-se
os bosques que para cá as lançaram ágeis.
E a amplitude da nossa voz plural aumenta de fluxos
ao ramificar-se por um declive de fusão acima.
Neste terraço podemos ser aéreos ou térreos.
Ou aéreos e térreos em simultâneo.

OPUS LEα I
OPUS LEα I reúne quatro livros em esboço, escritos e reelaborados em 1971, nos quais Paulo Ferreira explora a palavra como gesto de liberdade, descoberta e transformação. Entre o corpo e a paisagem, o silêncio e o rumor, a caminhada individual e o desejo de uma existência colectiva, a escrita ergue-se como matéria viva. Num universo poético intensamente metafórico, cada texto procura ultrapassar os limites do sujeito e alcançar um território comum, aberto à claridade, ao encontro e à reinvenção da vida.
