José Carita Monteiro
José Carita Monteiro nasceu em Alter do Chão, Alentejo, em 1951. Seguiu o percurso académico habitual para a época, concluindo o curso dos Liceus em Portalegre. Não tendo ingressado no ensino superior, foi mobilizado para a Guerra Colonial na Guiné, experiência que marcou o seu percurso de vida. A sua escrita, em poesia e prosa, afirma-se desde 1975 como um espaço de denúncia das agressões ambientais e da ameaça crescente sobre diversas espécies animais, algumas em risco de extinção. Esta preocupação encontra expressão nos livros de poesia Os Sinos Roubados e A Sobreira de Luas, este último distinguido com Menção Honrosa no Prémio de Poesia “Sebastião da Gama”, em Azeitão. A partir de 2017, dedica-se com maior incidência à prosa, nomeadamente ao romance, explorando cenários marcados pelo agravamento das crises ambientais e pelas suas consequências na fauna e na flora. Dessa fase resultam as obras Alter – Sortilégio e Estigma (2018) e O Dom de Yogyakarta (2022). Mais recentemente, publicou A Última Emboscada no Cantanhez (Gaimoreia) e A Madinha de Guera – Um Tempo (2024), bem como O Desprotegido (e outros contos de abeltéria) (2025), consolidando um percurso literário atento às fragilidades do mundo natural e às tensões da condição humana.
Sus libros

O Desprotegido
A memória pode percorrer-se através das trilhas que se cruzaram em idades diferentes ou ensarilhadas nas memórias de outros. Ao “Desprotegido” poderia chamar-se “A Sedição de Joyce” os “Sons da Memória” ou “Abandono”, como o autor chegou a pensar.
Na medida em que foi planeado com a intenção de dar o devido realce ao papel das crianças que povoaram o ruralismo alentejano, guardando os rebanhos, arroteando e plantando a terra e sofrendo na pele uma quase endémica violência familiar determinada a compasso da estrénua sobrevivência, deitaria por terra a intenção que lhe deu vida. Seria uma traição.
Mas não se fica por aqui. Abeltéria é um território da água, ajoujado por um passado multissecular onde todas as correntezas deixaram vestígios. E é nestes que o autor ancora os diferentes palcos onde se consumiram e se consomem, anonimamente, tantas outras vidas.
Como escreveu alguém, já vai de mar a monte o debate sobre o Interior desertificado, sobre a violência, a saúde, o ensino, o assistencialismo, os direitos das mulheres e das crianças, mas há ainda muito por dizer. A divagação de Blimis, traz a terreiro um conjunto de situações onde as muitas personagens do passado e do presente se confrontaram com as suas insuficiências e as misérias de cada tempo.
Quatro amigos aproveitam o reencontro, em plena pandemia do SARS–coV-2, para porem de pé as inúmeras barreiras que lhes tolheram o caminho. Mas não só a eles: a todo um povo, que recusou e vai adiando a vivência plena da liberdade e a livre escolha. Em Abeltéria, ainda se consomem os dias na angústia latente de uma velha premonição.
A linguagem, por vezes desconexa e ininteligível, reflecte o entrelaçado asfixiante em que se envolveram os espíritos abelterienses, confrontados com o ocaso de um lugar onde a vida refulgiu. Como paga pelos maus-tratos infligidos aos seus, os governantes têm sido enjeitados, ao longo dos séculos, pelas deusas da vingança. Nada ficou, nem ficará, de um diário de coisas grandiosas, se não mudarem os atores em cena.
Abeltéria ou Elteri vingou no império, levada pelas mãos da água. Não tem sido cuidada de há uns tempos a esta parte, mercê de sucessivas administrações evolutivamente nepotistas. Já Cícero não o ignorava.

Da Cidade de Régio
Em A Cidade de Régio, o autor confronta o misticismo clerical de outros tempos com a urgência de uma nova era. Entre a serra e o mar, dois antigos colegas de liceu reencontram-se na velhice para gerar, não um filho, mas um manifesto de sobrevivência ambiental. Um romance onde a alma humana tenta decifrar o vento, e a natureza se insurge contra a decadência sob o olhar atento e severo dos fantasmas de José Régio e de outros grandes mestres do passado.
