Fernanda Bernardo
FERNANDA BERNARDO é Professora de Filosofia jubilada da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Para além de tradutora de Jacques Derrida, de Emmanuel Levinas, de Maurice Blanchot, de Hélène Cixous e de Jean-Luc Nancy, é também autora de várias obras e de ensaios em revistas e obras coletivas nacionais e internacionais. Trabalha na área da Desconstrução, tendo nomeadamente organizado o Colóquio Internacional (Nov. 2003) A Soberania. Crítica, Desconstrução, Aporias – que contou com a presença e a participação de Jacques Derrida – e o 1º Colóquio Internacional de Pós-Graduação em Desconstrução (Out. 2014) – que contou com a presença e participação do filósofo Jean-Luc Nancy. Foi membro do Comité Científico de Filosofia do SSHRC – CRSH e Representante de Coimbra-Cidade refúgio (2003-2006) junto do Réseau International des Villes Refuge afecto ao Parlement International des Écrivains (Strasbourg).
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Derrida lecteur de Heidegger
«[…] Derrida avait lu Heidegger ainsi qu’un nombre assez important des philosophes français à partir des années 30 pendant lesquelles la philosophie allemande s’était presque autodissoute quand elle ne s’était pas exilée. Mais il avait lu, ce qui s’appelle lire ! c’est-à-dire scruter, interroger, évaluer, transformer, etc. D’autres lecteurs avaient produit, avant lui et en même temps que lui, des commentaires de haute tenue et de grande finesse. […] D’autres, Levinas le premier (et Foucault le deuxième) ayant reconnu très tôt l’importance de Heidegger, avaient entrepris de s’en détourner résolument (sans rien renier de leur reconnaissance initiale). Derrida, lui, embarrassait puisqu’il ne se laissait pas classer d’un côté ou de l’autre. Que faisait-il donc ? Il lisait, vous diton: il discernait, détachait, écartait et refaçonnait. Qui prête attention à la déclaration qu’il fait dans son ouvrage séminal – La Voix et le phénomène (1967) – sur le rôle décisif qu’a joué pour ce livre sa lecture de Heidegger doit se demander ce que sous-entend cette affirmation, qui reste sans autre explication. Il y a tout un travail de thèse à faire sur ce seul point. Sans faire ce travail on peut en donner l’amorce : ce livre est celui où s’invente la différance. Or de celle-ci on sait qu’il est difficile d’exposer la pensée mais on sait aussi qu’il est au moins assez évident qu’elle se distingue, se défait et se délie de la différence ontico-ontologique. Derrida lecteur de Heidegger s’est d’emblée distancié, détaché de Heidegger le long de son mouvement même. On peut dire qu’à partir de là était engagée une déhiscence jamais achevée, plutôt même toujours accentuée, avec la disposition de fond de Heidegger […]» Le 5 février 1988, une conférence réunissait à Heidelberg Hans- Georg Gadamer, Jacques Derrida et Philippe-Lacoue-Labarthe. Il s’agissait de discuter de l’implication de Martin Heidegger dans le nazisme : le livre de Víctor Farías venait d’être publié et la presse avait fait grand bruit des informations véhiculées par cet ouvrage. Quand vint le tour de Jacques Derrida de parler, il eut une précaution oratoire qui sera aussi la nôtre : « [...] je voudrais adresser une demande qui est, au fond, celle que, implicitement, j’ai toujours adressée en France à ceux qui parlaient de ces problèmes graves, ou nous demandaient d’en parler. Je suppose donc qu’ici personne n’est favorable, d’une manière ou d’une autre, ou ne veut être favorable, à ce que nous appelons tout le temps très vite le nazisme, le totalitarisme, le fascisme; et que nous pouvons établir comme protocole d’une discussion que personne n’est, en conscience, suspect de vouloir défendre ces thèses ici. Que personne, non plus, ne prétend absoudre, disculper, innocenter Heidegger de toute espèce de faute de ce côté-là. »

Derrida – o dom da différance
«Existem numerosos mal-entendidos acerca do que outros «desconstrucionistas» e eu mesmo tentamos fazer. É totalmente falso pretender que a «desconstrução» é uma suspensão de referência. A «desconstrução» está profundamente preocupada com o outro da linguagem. Sou sempre surpreendido pelas críticas que vêem no meu trabalho a declaração de que não há nada para além da linguagem, que estamos aprisionados na linguagem. É exactamente o contrário. A crítica do logocentrismo é acima de tudo a procura do outro e do outro da linguagem. Todas as semanas recebo comentários críticos e estudos sobre a «desconstrução» que partem da hipótese de que aquilo a que chamam «pós-estruturalismo» leva a dizer que não existe nada para além da linguagem, que estamos submergidos pelas palavras – e outras estupidezes do mesmo género. A «desconstrução» tenta, certamente, mostrar que a questão da referência é muito mais complexa e problemática do que as teorias tradicionais supõem. Ela pergunta mesmo se o nosso termo «referência» é verdadeiramente adequado para designar o outro. O outro, que se situa para além da linguagem e a intima, não é talvez um «referente» segundo o sentido normal que os linguistas lhe concederam. Mas distanciar-se das estruturas habituais de referência, desafiar ou complicar as nossas hipóteses comuns sobre a linguagem, não conduz necessariamente a dizer que não há nada para além da linguagem.» Jacques Derrida

Derrida – em nome da justiça. Do cosmopolitismo à alter-mundialização por vir
«Die Welt ist fort, ich muss dich tragen» / «O mundo acabou, [eu] tenho de portar-te» é o verso de Paul Celan que, a título de exergo, me serve aqui de fio condutor para tentar dilucidar, a par, quer a singularidade da Desconstrução derridiana, como idioma de pensamento filosófico no contexto da História da Filosofia, quer a singularidade da ousadia sonhadora da sua proposta de re-pensar o cosmopolitismo em termos de alter-mundialização por vir ou de «nova Internacional democrática», assim revolucionando o tradicional paradigma onto-fenomenológico e, mesmo, onto-teológico do político (polis).

Espectrografias – Do Marxismo à Desconstrução
«Será sempre uma falta não ler e reler e discutir Marx. Quer dizer, também alguns outros – e para além da “leitura” ou da “discussão” de escola. Será cada vez mais uma falta – uma falta à responsabilidade teórica, filosófica, política. […] Não haverá porvir sem isso. Não sem Marx – não há porvir sem Marx. Sem a memória e sem a herança de Marx: em todo o caso, de um certo Marx, do seu génio, de pelo menos um dos seus espíritos. Porque, tal será a nossa hipótese, ou antes o nosso parti pris: há mais de um, deve haver mais de um.» J. Derrida, Espectros de Marx, p. 40 «Houve esta radicalização tentada do marxismo que se chama desconstrução» J. Derrida, Espectros de Marx, 158.

Idiomas da Ética e da Justiça (Levinas –Derrida)
Como Dominique de Villepin soube salientá-lo, Jacques Derrida (1930-2004) é «o autor de um pensamento novo: um pensamento ditado e magnetizado por um racionalismo incondicional cuja démarche, eminentemente exigente, afirmativa, corajosa, justa e criativa, não des-constrói, sem nunca destruir, senão para, ao ritmo de cada passo do seu assumido «pas au-delà», ao ritmo de cada aqui-agora, tentar ir sempre mais longe e de modo crescentemente sempre também mais justo, respondendo à incondicionalidade da injunção do que acontece.
Com efeito, ditada e magnetizada pela confessa paixão derridiana pelo «segredo a-b-s-o-l-u-t-o» – sintoma do algures absoluto relativamente à ocidentalidade filosófico-cultural (embora ainda nela: epekeina tes ousias, khôra, …), que põe em questão a archê plena e, portanto, a crença na principialidade, na mono-genealogia e no identitarismo – , a Desconstrução é, de facto, um pensamento novo testemunhado numa obra imensa que, na tão sombria desorientação dos tempos que vivemos, tão urgentemente necessário me parece e cujo timbre eu muito desejaria lograr fazer ressoar aqui, salientando a coragem e a exigência da sua singular ir-responsabilidade – bem como da do próprio pensamento segundo este pensamento: o timbre de um «canto novo» epekeina tes ousias e, ipso facto, epekeina tes filosofias […] – um canto que, pressupondo um novo re-começar para a filosofia e uma nova inspiração ou como que «fundação» para o instituído em geral, solicita, a meu ver, nada mais, nada menos, do que a urgência de uma nova atitude da filosofia e uma mutação cultural e, mesmo, civilizacional.» (p. 235-236)
